Não tem jeito. Ela vai ter que pagar.
Ela me olha com olhos incrédulos. E eu não posso fazer nada. Uma sensação de impotência toma conta de mim. Como pude permitir que minha noiva se envolvesse nisso? Devolvo-lhe o olhar, mas não consigo mantê-lo por muito tempo, pois o sentimento de culpa é imenso. Eu é que devia estar no lugar dela. Eu é que devia estar enfrentando aquela terrível situação. À minha frente, ela continua a manter os olhos em mim. Olhos marejados. Desesperados. Os lábios apertados não ousam dizer uma só palavra enquanto os longos minutos de tortura se arrastam lentamente.
Ela sempre foi uma mulher de coragem. Seu rosto meigo e seus gestos suaves contrastam com sua personalidade forte e determinação. Passamos por muitos problemas juntos durante nossos dois anos de convivência, com um sempre ajudando o outro.
Lembro-me de uma vez, logo nos primeiros anos de noivado. Eu tinha uma entrevista de emprego e estava muito atrasado. Entramos, os dois, no meu carro, pois pretendia deixá-la na faculdade, onde ela terminava seu curso de história. Dirigi apressado por entre o trânsito de São Paulo, quando, numa curva, perdi o controle do automóvel e acabei batendo fortemente contra o portão de uma casa. Ficamos com algumas escoriações, mas nada grave. Era uma oportunidade de podermos acelerar nossos planos de casamento, portanto, eu não podia perder a entrevista. De comum acordo, ela se responsabilizou pelo acidente enquanto eu saí correndo atrás de um táxi. Minha noiva acabou perdendo sua aula, teve que enfrentar o dono da casa avariada, a polícia e todo o transtorno burocrático gerado pelo acidente. Isso, sem contar que ela quase teve a carteira de motorista apreendida. Mas ela fez isso por nós. Por mim. E suportou tudo sozinha.
Agora, novamente, ela está só. Eu a abandonei à própria sorte. Apesar de estar à sua frente, nada posso fazer para ajudá-la. Não posso livrá-la do sofrimento, tampouco do golpe final, que – perversamente – eles insistem em prorrogar até o limite do suportável.
Sim, eles. A escória da humanidade. Sádicos sem escrúpulos, que se deliciam ante o sofrimento alheio. Eles não têm piedade de ninguém. Pacientemente esperam o momento certo para atacar. Quando o momento chega, eles se divertem. Saboreiam ao máximo nossa angústia, nosso lamento, nossa dor, até aplicar-nos a punhalada de misericórdia. Covardes!
O ambiente acolhedor do lugar apenas disfarça as reais intenções desses abutres. Por entre as sombras daquele enorme salão à meia-luz, com certeza escondem-se bichos nojentos e desprezíveis, espreitando e sentindo o cheiro do medo e do pavor, que emana de mim e de minha querida noiva.
Tenho vontade de gritar para ela “fuja! Corra! Salve-se!” Mas seria muito pior. Um ato de desespero é tudo o que eles querem. Um motivo para transformar aquela tortura em algo humanamente insuportável para minha amada. E é tudo minha culpa. Tento, ao menos, pegar em sua mão, mas ela a retrai, franzindo a testa enquanto me fuzila com os olhos lacrimejantes. Tento dizer-lhe algo, mas a voz custa a sair. Se eu, ao menos, pudesse ficar em seu lugar! Mas eu não posso. Para eles, não teria diferença. Alguém para torturar, amedrontar; uma vítima para subjugar, ameaçar, é tudo o que querem. O que importa é que a dívida deve ser paga. Malditos!
Olho para o fundo do salão. Eles conversam tranquilamente. Um deles nos espia com um sorriso sarcástico. Ele pega sua principal ferramenta de sofrimento e, ainda com aquele sorriso, se dirige a nós. É o fim. Não há como escapar. Minha noiva também percebe a aproximação do seu algoz. Seu pavor é quase palpável. Sinto que não vou suportar vê-la ser cruelmente sacrificada. Eu poderia simplesmente ir embora, fugir daquele inferno e abandonar a mulher que amo à sua própria sorte. Deixá-la nas mãos daquela matilha sanguinária e aguardar que o sacrifício humano termine, longe de meus olhos. Mas, embora a idéia seja irresistível, diante das terríveis circunstâncias, não me atrevo a sair de meu lugar. Não posso deixar minha noiva numa hora tão terrível como essa. Ainda mais sendo o culpado pelo seu trágico destino.
O carrasco se aproxima cada vez mais. Minha noiva aperta minhas mãos com força. Seus olhos se fixam nos meus. Sinto sua respiração acelerar e falhar. Aperto também as mãos dela. Procuro dizer com meus olhos o quanto eu a amo e o quanto sinto por tê-la envolvido em tudo isso.
Ele chega, enfim, e se coloca ao lado da minha amada. Ela me olha uma última vez , com os olhos lacrimejantes. O algoz se inclina perto dela, que fecha os olhos e respira profundamente. O instrumento de tortura é apresentado e colocado à frente da minha querida noiva. Seus olhos me encaram novamente e parecem me perguntar “como pode fazer isso comigo?”, enquanto começa abrir a bolsa e, de dentro, tirar o cartão de crédito.
Eu, impotente, angustiado, assisto calado à terrível cena. Tento me conformar com o fato de que, apesar de tudo, aquela forte mulher sobreviverá. O garçom, cínico, continua com seu sarcástico sorriso no rosto. Afinal, a dívida deve ser paga. E minha querida noiva vai ter que pagar. O que me resta é pedir-lhe perdão e prometer não esquecer a carteira novamente.